Encontro Interfases: Uma vivência de integração dos estudantes e professores do Curso de Graduação em Enfermagem da UFSC
Olga Regina Zigelli Garcia
I – Introdução
Em novembro de 1994, durante o processo eleitoral para os cargos de Coordenador e Sub-coordenador do Curso de Graduação em Enfermagem da UFSC, uma das chapas, integrada pelas professoras Olga Regina Zigelli Garcia (candidata à Coordenadora) e Tânia Mara Xavier Scóz (candidata à sub- Coordenadora) apresentou na sua plataforma de trabalho, entre outras, a proposta de “ … Instituir o primeiro dia de aula de cada semestre, a partir de 95.2 para encontro e troca de experiências de todas as fases e professores envolvidos no curso.”
Uma vez eleita, a chapa assumiu a Coordenadoria do Curso e denominou o encontro de ENCONTRO INTERFASES.
Em 26/06/95 a proposta foi levada ao Colegiado do Curso de Graduação em Enfermagem, tendo sido aprovada por unanimidade.
Após a devida aprovação no Colegiado do Curso de Graduação em Enfermagem, a proposta foi apresentada ao Departamento de Enfermagem. Como as fases do ciclo profissionalizante encontraram dificuldades em “ceder” este espaço, que subtrairia 5horas aula de seu cronograma, a chefia do Departamento de Enfermagem, na pessoa da Prof. Kenya s. Reibnitz intermediou um acordo entre as fases e o Colegiado de Curso, sendo desta forma, concedido para a realização do encontro 3 horas aula.
O primeiro Encontro Interfases Ocorreu em 01 de agosto de 1995.
II – Histórico da Metodologia adotada para a organização do Encontro
O curso tinha em 95.2, 280 alunos distribuídos em 08 fases. Como o objetivo era integração e troca de experiências, num primeiro momento (07:30 – 08:00h) todos os alunos concentravam-se no Auditório do Centro de ciências da Saúde.
Ao chegarem recebiam identificação com crachás de cores diferentes que tinham por objetivo evitar o agrupamento por afinidade e garantir que na mesma sala houvesse alunos da primeira à oitava fase. Sendo assim, em uma fase com, por exemplo, 40 alunos, eram distribuídos crachás com 07 cores diferentes.
Após as boas vindas pela Coordenadora do Curso, explicando o objetivo do encontro, os 280 alunos foram divididos em 07 turmas de 40 alunos, sendo cada turma alocada em uma sala correspondente a cor do crachá que o aluno recebia.
Cada turma tinha um professor colaborador (que aceitava o convite da coordenadoria do curso para participar) que tinha a função de coordenar os trabalhos através de roteiro pré-estabelecido para o encontro, lista de presença e roteiro de ata. Para cada turma, a coordenadoria convidou um aluno recém-formado para relatar a experiência da última fase do curso.
Uma vez deslocados os grupos de trabalho para as respectivas salas (08:00 – 08:15h). os participantes tinham 15 minutos para apresentação individual sendo eleito, no grupo, um secretário e um cronometrista.
A seguir, estimulados pelo Coordenador, os alunos tinham uma hora para relatar as experiências vivenciadas na fase que tinham acabado de cursar, ressaltando pontos positivos, negativos e fazendo recomendações para a melhoria da qualidade de ensino.
Os vinte minutos finais do Encontro eram reservados para avaliação do mesmo e sugestões para os próximos. Tendo em vista que a avaliação do I Encontro Interfases foi positiva, o segundo encontro ocorreu em 05/03/96, seguindo a mesma metodologia.
No terceiro Interfases, a metodologia foi mudada, usando-se os primeiros 10 minutos para apresentação de todos os coordenadores (de fase, de pesquisa, de extensão, pós- graduação, etc.) do Departamento de Enfermagem, mais 5 minutos para uma apresentação musical feita por aluno. Os alunos, desta vez, foram agrupados por fase e, após 15 minutos de trabalho conjunto, tiveram um total de 50 minutos para apresentação do relatório de todas as fases. O auditório foi previamente enfeitado com balões, que ao final foram estourados para a leitura de mensagens neles contidas, para cada fase. Ao final do Encontro, todos – professores e alunos cantaram uma música e, de mãos dadas fizeram uma oração.
Foi a primeira vez que o componente afetivo-emocional foi introduzido no Encontro. A partir deste Interfases, por sugestão do conjunto de alunos e professores, o Encontro passou a ocupar 5 horas aula, tendo portanto, além do tempo destinado à avaliação e reflexão do curso, tempo para jogos e brincadeiras de integração entre alunos e professores. A partir do quarto Encontro, os alunos passaram a eleger, entre seus pares, a Miss e o Mister Interfases, idéia esta criada na gestão da Coordenadora do Curso de Graduação em Enfermagem – Tânia Mara Xavier Scóz e Eliane Pereira do Nascimento.
As atividades de integração formadas por brincadeiras, jogos e distribuição de brindes para sorteio (livros e periódicos publicados por professores do Departamento de Enfermagem), passaram a ser parte integrante dos Encontros que passaram também a ser assumidos e coordenados pela nova Presidente do Colegiado do Curso, prof. Marta Lenise do Prado.
Em 1999, assume nova Presidente do Colegiado – Prof. Vera Radünz que, em função da LDB e de sua importância para educação, suprime os jogos e brincadeiras do Encontro, para possibilitar a abertura de espaço para discussão da LDB e suas repercussões junto aos alunos.
Neste mesmo ano iniciou-se a busca e a apresentação de “talentos” entre professores e alunos que, a cada encontro, passaram a apresentar-se com poesias, contando anedotas, tocando instrumentos musicais, cantando músicas, falando outro idioma, enfim: divulgando talentos não relacionados à profissão de enfermeiro, na busca de interação simplesmente como seres humanos.
No primeiro semestre de 2000, o Encontro, ainda planejado pela Presidente do Colegiado, com a colaboração de professores interessados, teve mais uma inovação: foi solicitado aos alunos da oitava fase (formandos), que apresentassem um resumo de sua vivência no curso.
Os alunos fizeram a apresentação na forma de dramatização intitulada “Falha Nossa”, onde fase a fase, destacaram os momentos mais marcantes, seus medos, anseios, erros e acertos, simulando situações de ensino-aprendizado teórico e prático. Esta apresentação causou encantamento e admiração do conjunto de alunos e professores da platéia, pelo potencial criativo e humanístico dos alunos. A experiência foi tão positiva que a professora Vera Radünz, então Presidente do Colegiado do Curso, sugeriu que os próximos encontros fossem programados pelos alunos, havendo sorteio da fase que ficaria responsável pela programação do mesmo. Os sorteados foram os formandos, que ficaram responsáveis pelo preparo do evento, com a colaboração dos professores e, em especial, da Presidente do Colegiado do Curso.
A partir de 2002.2, decidiu-se por votação no Interfases, que os alunos formandos passariam a assumir a organização e programação de todos os encontros, contando com o apoio e parceria da Presidência do Colegiado do Curso e dos professores interessados em colaborar. No primeiro semestre de 2010 foram completados 15 anos de Interfases.
III – Avaliação
Desde o primeiro Encontro, a maioria das avaliações tem sido positiva.
Na metodologia inicial, voltada mais para avaliação e busca da melhoria da qualidade de ensino, houve uma resistência inicial do corpo docente, que passava a ser avaliado pelos alunos. Esta resistência inicial cedeu espaço à compreensão de que este era um bom momento para crescimento e revisão dos paradigmas da metodologia de ensino.
O corpo discente, desde o início, gostou de ter um espaço para colocar sua ótica, expor seus medos, angústias, ansiedades e reivindicações num fórum legitimado para tanto, pelo Colegiado do Curso. Além de legitimado “de direito”, o Encontro passou a ser legitimado “de fato”, na medida em que professores e alunos foram incorporando esse evento na vida acadêmica.
À medida que brincadeiras, jogos e outros momentos lúdicos de integração foram sendo introduzidos no Encontro, este passou a ser mais “humanizado”, cativando a cada semestre mais adeptos, tanto no corpo discente, como no docente.
Como este encontro é também um exercício de democracia, a presença, tanto de alunos, como de professores, não é obrigatória, no entanto, a platéia nunca é inferior a 200 pessoas, ou seja, a maioria dos envolvidos no curso.
Aqueles que não o julgam importante e necessário têm o direito de não participar. Podemos dizer que existe, entre alunos e professores, uma parcela que considera o Interfases desnecessário, repetitivo ou sem importância, mas também podemos afirmar com convicção, pela própria computação das listas de presença, que estes constituem minoria.
O corpo discente atualmente assume este espaço e este momento como seu e dele não
“abre mão”.
A poesia abaixo transcrita, feita por uma tia de formanda, para ser declamada no Interfases 2000 talvez, na nossa percepção, resuma o pensar do coletivo do corpo discente sobre este encontro:
“ Nossas caras professoras
Criaram o Encontro Interfases
Já vários aconteceram
E nos serviram como base
Elas sempre o organizaram
Com muita dedicação
Mas agora resolvem
Dar para nós esta lição
Fizeram então um sorteio
Do tipo carta marcada
Para ver das oito fases
Qual seria a sorteada
Coube a nós da 8ª fase
Pois só assim poderia ser
Organizado este encontro
E é justo isto acontecer
Só nós podemos fazer
Um completo retrospecto
Comentar fase por fase
Salientando um aspecto”
… continua
Outras formas de avaliação incluem falas como:
“É válido para quebrar expectativas negativas em relação às fases que vamos integrar”
“É bom para conhecermos os colegas do curso”
“Dá um conhecimento geral do curso”
“Quem está entrando (calouro) passa menos dificuldades e esclarece dúvidas”
“Evidencia fatos positivos e negativos de cada fase”
“Oportunidade para conversar, expor problemas, não deixando se acumularem”
“Importante para conhecer professores que dão aula e professores que ocupam cargos no curso”
“Foi emocionante”
“Espaço para o aluno colocar o que passou e preparar o aluno que está ingressando na fase”
“Promove visão ampla do curso”
“O aluno se sente recepcionado no curso”
“Propicia integração entre as pessoas do curso”
“O conhecimento prévio da fase que se vai cursar auxilia no desempenho do aluno”
IV – Considerações Finais
Concluímos que o Interfases é um momento importante na vida acadêmica e tem se mostrado uma experiência positiva. Ao propiciar, além da integração entre os indivíduos que compõe o todo de um curso (corpo docente e discente) como seres humanos, a oportunidade para uma avaliação continuada do curso e de seus paradigmas na relação ensino-aprendizagem, proporciona um salto qualitativo para melhoria do ensino e por conseqüência, do profissional em formação.
Recomendamos a todos os Cursos de Nível Superior, em especial os de Enfermagem, que busquem implementar o Encontro Interfases, na busca de ver única e simplesmente como Gente os indivíduos que instrumentalizam para lidar com o ser humano.